A HIPOCRISIA DOS CARNISTAS: O CASO DO CAVALO CARAMELO
A HIPOCRISIA DOS CARNISTAS: O CASO DO CAVALO CARAMELO
Resumo: O objetivo deste texto não é defender a perspectiva conhecida como veganismo ou vegetarianismo. O objetivo deste texto é expôr a hipocrisia de um grupo de pessoas, que chamo de ''carnistas do senso comum'' - pessoas que consomem carne apenas por prazer, não por considerações racionais - que enquanto consomem carne de origem animal mantendo essa indústria viva, muitas vezes aparecem publicamente se posicionando em defesa da vida dos animais, como neste caso que iremos abordar.
INTRODUÇÃO
"Todos os argumentos para provar a superioridade da espécie humana não podem quebrar essa dura realidade: no sofrimento, os animais não-humanos são nossos iguais." (Peter Singer)
Nesta semana, viralizou um vídeo de um cavalo caramelo ilhado há quatro dias em cima de um telhado, em uma das casas atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul.
Fiquei feliz em saber o desfecho dessa história: o cavalo foi resgatado com vida e passa bem. O que me deixou perplexo no entanto, foi a hipocrisia dos carnistas do senso comum¹ que inundaram a internet de comentários e postagens defendendo a urgência do resgate do cavalo que corria risco de vida na medida que o tempo passava. Me perguntei como alguém que consome carne de origem animal praticamente todo dia poderia, concomitantemente, se importar tanto com a vida deste animal sem perder a coerência.
Talvez você esteja pensando que eu estou confundindo as coisas, afinal, o caso em questão se refere a um cavalo, e ao menos no Brasil, ninguém os consome. Mas esse é um tipo de pensamento conhecido como pensamento especista. Assim como o pensamento racista presume que existem raças superiores às outras (ex. a raça branca ser superior à negra), o pensamento especista presume que existem espécies superiores às outras (ex. a espécie humana seria superior às outras éspecies de animais). No caso dos carnistas que defenderam o cavalo em questão, o tipo de especismo cometido seria o de que algumas espécies de animais (como o cavalo, cães e gatos por exemplo) seriam superiores à outros animais (como a galinha, bois e porcos por exemplo)². Noutras palavras, o especista privilegia a vida de uns animais em detrimento de outros, seja por razões emocionais ou sociais. Mas o especismo é um tipo de preconceito por definição, já que não existem razões que justifiquem a crença de que a vida dos animais tradicionalmente consumidos pelos carnistas sejam menos digna de valor, e portanto, inferiores das dos animais que não são consumidos, como é o caso dos cavalos. Assim como cães, gatos e cavalos, os bois, as galinhas e os porcos também são sencientes e sentem dor.
Sendo assim, todo carnista é um grande hipócrita quando se comove pela vida de algum animal, seja ele qual for.
Meu conselho aos carnistas deste tipo é esse: ou abandonem o preconceito especista e sejam coerentes com suas posições parando de privilegiar a vida de certas espécies de animais, ou abandonem suas posições por completo e abracem logo o veganismo.
Última atualização: 24/12/2025
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NOTAS
[1] Toda pessoa que consome carne de origem animal apenas por prazer, não por considerações racionais.
[2] Especismo eletivo é o ato de discriminar certas espécies de animais não-humanos de maneira seletiva, privilegiando alguns, como cães e gatos, e explorando outros, como bois e porcos, geralmente com base na cultura, utilidade ou estética. Diferente do especismo elitista que presume que os humanos seriam moralmente superiores aos animais não-humanos, o especismo eletivo presume que algumas espécies de animais não humanos seriam moralmente superiores à outras espécies de animais não-humanos.
SOBRE O AUTOR
Higor Malta Costa é formado em filosofia e pós graduado em filosofia da religião. Seus principais temas de interesse são os argumentos envolvendo a existência de Deus, filosofia da argumentação e filosofia minimalista.
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