O JOIO NO TRIGO: ALERTAS SOBRE O SADFISHING

O JOIO NO TRIGO: ALERTAS SOBRE O SADFISHING


Autor: Higor Malta Costa



INTRODUÇÃO


Você já se deparou com algum tipo de postagem exageradamente dramático por algum usuário da internet expondo algum problema pessoal apenas com o intuito de engajar? Se sim, então você já presenciou um caso de Sadfishing.


SADFISHING: O QUE SIGNIFICA?


"Sadfishing" é um termo em inglês que significa algo como ''pesca triste'' ou ''pescaria triste''. O termo apareceu publicamente pela primeira vez no Jornal Britânico Metro, em um artigo da colunista Rebecca Reid, em Janeiro de 2019¹. Segundo a colunista, o termo refere-se aos comportamentos exageradamente dramáticos de usuários na internet cujo objetivo é "fisgar" (chamar a atenção)  de outros usuários por meio de algum apelo triste, explorando a empatia delas para engajar, obter validação ou até mesmo benefícios financeiros.


COMO TUDO COMEÇOU?


Mas afinal de contas, de onde o sadfishing surgiu? 

O caso emblemático que originou a noção de sadfishing envolveu a modelo Kendall Jenner, cuja mãe, Kris Jenner, publicou um vídeo nas redes sociais promovendo uma suposta revelação impactante sobre a filha. Com forte apelo emocional, o conteúdo induzia o público a acreditar que Jenner faria uma confissão íntima relacionada a algum transtorno emocional ou problema grave de saúde:


''Estou tão orgulhosa da minha querida por ser tão corajosa e vulnerável. Te ver partilhar sua história mais crua para causar um impacto positivo para tantas pessoas, ajudando a fomentar um diálogo positivo é um testemunho da mulher incrível que se tornou. Certifique-se de assistir Kendall no Twitter domingo à noite para descobrir do que estou falando e prepare-se para ser movido'' (JENNER, 2019).


Nem é preciso dizer que esse comunicado chamou bastante atenção, principalmente do grande número de seguidores da sociality. No entanto, a revelação tratava-se de uma campanha publicitária sobre acne, com Jenner relatando seu sofrimento com isso num cenário produzido estrategicamente para parecer tudo muito triste, suscitando críticas sobre o uso manipulativo do sofrimento como uma ferramenta de puro marketing.

Esse episódio foi então interpretado por Reid como um exemplo padrão de sadfishing: a dramatização exagerada do sofrimento não como expressão autêntica de dor cujo objetivo é encontrar ajuda, mas obter engajamento, validação ou vantagens financeiras.


COMO O SADFISHING PREJUDICA AS PESSOAS?


Do ponto de vista ético, a questão central reside na dificuldade de distinguir entre uma exposição legítima do sofrimento — muitas vezes um pedido velado de socorro — e uma manipulação emocional com finalidades dúbias. Essa ambiguidade é precisamente o que torna o fenômeno preocupante, sobretudo para sujeitos vulneráveis que utilizam as redes como espaço terapêutico ou de denúncia.

As consequências do sadfishing vão além da superficialidade estética das redes sociais. Ele afeta diretamente indivíduos que, de fato, enfrentam quadros de sofrimento psíquico e recorrem às mídias como forma de expressão ou pedido de ajuda. A proliferação de postagens emocionalmente manipuladoras cria um ambiente de suspeição e insensibilidade, reduzindo a credibilidade de manifestações genuínas.


O caso da influenciadora Aline Morais ilustra tragicamente os impactos do sadfishing ou melhor, da suspeita injusta de sadfishing. Aline, que enfrentava depressão e transtornos de ansiedade, foi publicamente desacreditada e ridicularizada após anunciar que manteria a cerimônia de seu casamento sozinha, após o noivo desistir do matrimônio. Acusada de armar a situação para obter atenção, Aline foi alvo de ataques e comentários ofensivos. Dias depois, cometeu suicídio. Casos como este evidenciam o caráter potencialmente letal da banalização do sofrimento nas redes e da desconfiança generalizada que o sadfishing pode fomentar.


COMO IDENTIFICAR O SADFISHING?


Distinguir entre uma manifestação legítima de sofrimento e um caso de sadfishing não é tarefa simples. Contudo, algumas diretrizes são sugeridas por especialistas em saúde mental. A psicóloga Shoshana Bennett (2019) argumenta que postagens isoladas de indivíduos sem histórico de exposição emocional merecem atenção cuidadosa, enquanto Lindsey Giller (2019) alerta para a importância de se levar a sério conteúdos que mencionam ideação suicida, independentemente do histórico do autor.

Dessa forma, adotar uma postura ética diante de publicações tristes requer sensibilidade e prudência. Ainda que se suspeite de intenções escusas, o enfrentamento público ou a exposição crítica do suposto sadfisher pode gerar consequências devastadoras. Uma abordagem compassiva, empática e privada, orientada pelo cuidado e pela escuta, mostra-se mais adequada. Como propõe a ética da alteridade de Emmanuel Levinas, a responsabilidade pelo outro deve anteceder qualquer julgamento ou categorização.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


O sadfishing revela uma faceta obscura da hipervisibilidade digital: a instrumentalização do sofrimento como moeda de troca afetiva ou econômica. Seu impacto não se restringe à esfera individual, mas afeta a ecologia afetiva das redes sociais, tornando-as ambientes mais cínicos, indiferentes e perigosos para os emocionalmente vulneráveis. Ao mesmo tempo, o fenômeno exige discernimento: nem todo conteúdo emocionalmente carregado é manipulação, tampouco toda autopromoção é ilegítima.


À medida que os modos de convivência se digitalizam, torna-se urgente refletir sobre os limites éticos da exposição emocional. O caso documentado no recente ''Meu Querido Bobby Era Tudo Uma Farsa'' (Netflix, 2024), embora focado em catfishing, ressoa com a problemática do sadfishing ao demonstrar como performances enganosas podem afetar profundamente vidas reais. Compreender e criticar tais práticas não é apenas um exercício acadêmico, mas um imperativo ético diante das fragilidades humanas expostas nas vitrines digitais. 


Última atualização: 14/07/24

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NOTAS

[1] Ver: https://metro.co.uk/2019/01/21/sadfishing-social-media-trend-making-misery-profitabl-8367931/


[2] Os tipos de vantagens não se restringem à questões comerciais, podendo variar de pessoa para pessoa. Entre algumas delas, estão a busca por simpatia, elogios e curtidas.


[3] Por ser uma terminologia bastante recente, as discussões sobre o Sadfishing ainda não alcançaram ampla popularidade, possuindo poucas referências.


[4] Ver: https://www.hypeness.com.br/2019/07/blogueira-que-se-casou-com-ela-mesma-suicida-apos-ataques-na-internet-e-abandono-de-noivo/.

REFERÊNCIAS


FISCHER, Kristen. Parade, 10 Out. 2019. Sadfishing 101: How to tell if you friend's social media post is a plea for attention - or a cry for help. Disponível em: < https://parade.com/935502/kristenfischer/what-is-sadfishing/ > Acesso em: 20 Abr. 2021.


KRIS JENNER. 5 Jan. 2019. Instagram: @krisjenner. Disponível em < https://www.instagram.com/p/BsQx4BgF2GP/?igshid=2u2s7wru0tev >. Acesso em 19 Abr. 2021.


LABATE, Fernanda. Vix, 16 Jul. 2019. Morte trágica de blogueira toma as redes e famosos fazem apelo por menos ódio. Disponível em: < https://www.vix.com/pt/comportamento/576226/whindersson-falou-sobre-ter-depressao-mesmo-com-fortuna-e-privilegios-e-fez-refletir?utm_source=next_article >. Acesso em: 19 Abr. 2021.


REID, Rebecca. Sadfishing: Using your sadness go get comments and shares is making misery profitable. Metro, 21 Jan. 2019. Opinião. Disponível em: < https://metro.co.uk/2019/01/21/sadfishing-social-media-trend-making-misery-profitabl-8367931/ >. Acesso em: 17 Abr. 2021.

SOBRE O AUTOR


Higor Malta Costa é filósofo de formação, pós graduado em filosofia da religião. Seus principais campos de interesses são: argumentos sobre a existência de Deus, filosofia da argumentação e filosofia minimalista. 


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